Resisti até hoje em escrever sobre o NAO, mas algo tem realmente me inquietado: a reação e desinformação das pessoas. Muitas ouvi comentar felizes pelo fato de “todos os acentos caírem por causa da reforma ortográfica”. Como assim? Nãããããão são todos os acentos que caem. AAAAAAAA. O acordo é muito claro: só se mexe nas paroxítonas e em um caso muito específico: os ditongos “ei” e “oi”. O outro caso de alteração é no “u” e no “i” tônicos precedidos de ditongo. E há os poucos casos de acento diferencial. E se o acordo (e informações errôneas sobre ele) é motivo para as pessoas deixarem de se preocupar em aprender sobre a acentuação (e sobre a sua língua), eu espero que seja apenas uma falha de informação e que seja cuidadosamente corrigida pelos super-heróis do ensino do nosso país.
Outubro 21, 2008
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Ela não tem cara de professora, de mestre, de revisora e de quase doutora. Mas ela é. Na primeira vez que a vi, usava uma saia jeans, sandália vermelha e blusa amarela. Professora, ela? E era. E veio trabalhar na mesa ao lado da minha. E veio para me ensinar a ser uma chata das palavras. E conseguiu.
Este blog é dela também; é ela quem me cobra que eu escreva. E cobra que eu escreva coisas que valham a pena ser lidas.
E ela vai ler este texto e me perguntar assim: “Não é você quem odeia que comecem as frases com ‘E’?”.
Agora ela vai revisar as ondas. Vai tirar a sandália vermelha para andar na areia. Vai para a capital. Para lá ela vai levar um pouquinho de sotaque de cada lugar em que morou. Vai revisar outros textos, falar com outras pessoas. Dela aqui, em mim, ela deixa a chatice, de que me orgulho, e a qual prometo cultivar.
Tenho certeza de que sentirei falta das sandálias vermelhas e do óculos de professora. Também da cobrança, do incentivo e das aulinhas de português.
A capital receberá feliz as sandálias vermelhas, a caneta vermelha e os dois gatos dela. Ela receberá das ondas a mesma calma que nos transmitia quando as impressoras pareciam explodir e os prazos nos sufocar. A ela sorte, sucesso e muito mar; é isto que desejo. Do tamanho do mar é o quanto tenho a agradecer a ela. Felicidades naquela “cidade horrível”, Fabiana!
Outubro 10, 2008
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Ela leu o meu texto para a disciplina “Coesão e coerência textuais” e disse que estou me escondendo na “habilidade” de escrever. Disse que fiz um texto coerente, coeso, porém vazio de conteúdo. Tirando o fato de eu ter de procurar terapia depois desta, pretendo pensar sobre o assunto. Confesso que já tenho restrições quanto a minha própria escrita pela prática da revisão (nós, revisores, sofremos muito na hora de escrever…); agora, então, depois do comentário da Fabiana, acho que nem vou conseguir terminar est
Brincadeirinha. É válido o puxão de orelha. Primeiro: preciso ler de novo “O habilidoso” para aprender com o Machado (que é um “baita” exemplo de crescimento e genialidade por meio do esforço); depois: preciso fazer algo que aconselharia a todo mundo – trabalhar um pouco menos, estudar um pouco mais.
Tá. Parei com este texto; fiquei com medo de fazer de novo um texto coeso e sem conteúdo. Acho que vou precisar mesmo de terapia…
Outubro 3, 2008
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Sempre fui uma irmã coruja, mas não é por isso que decidi reproduzir o poema a seguir. Ele foi escrito por um adolescente de 15 anos (uns 5 anos atrás), cheio de idéias. O poema não tem nome, mas o autor tem: Jeankel F. Mendes, meu irmão.
No mundo dos meus sentimentos
Me sinto fraco, e lento.
Tudo é difícil, para quem ama, amar como eu.
Você é minha Julieta,
E, no fundo, no fundo,
Passo a ser o teu Romeu.
Setembro 26, 2008
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“A polícia de Chapecó fez um treinamento tático com um boneco, lançando uma granada contra o boneco. Lembrando que esse, se fosse um ser humano, teria morrido.” Depois do transtorno de ter contrações no abdome devido ao ataque de riso que tive em frente à televisão, decidi que não poderia deixar de comentar essa brilhante colocação da repórter do jornal (o qual não cito; “conto a graça, não conto o santo”). Incríveis esses poréns que a vida (ou a não vida) nos coloca diariamente. Pensem no livramento que teve esse boneco: sorte a dele não ser um ser humano, se o fosse teria morrido! Sim, quantas vezes esse boneco olhou as pessoas ao redor e, no seu mais íntimo pensamento de boneco, refletiu: “como eu queria ter vida, jogar bola, correr pelos campos com os cabelos esvoaçantes…” Mas, no dia de hoje, o destino do boneco, que poderia ter sido trágico, não o foi, justamente por ele ter vindo ao mundo assim: um boneco. Tudo faz sentido agora…
Julho 31, 2008
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Pediram-me um texto. Pediram-me um amontoado de palavras. Quisera ter talento para unir palavras para além da sua semântica e fazê-las cantar. Isso, se eu conseguisse fazer, seria poesia. Quisera escrever a receita de um bolo, com dicas infalíveis de um doce que tivesse gosto de casa da avó, mas queimaria o bolo ainda na receita. Quisera escrever para as pessoas sobre a importância de aproveitarem seus pais porque deles vem muito do que somos, mas a psicologia e a auto-ajuda correm léguas de mim, ou eu delas. Então, se eu fizesse um texto, se eu conseguisse escrever um texto, começaria dizendo que não sei escrever. Ou sobre o que não sei escrever.
Não sei fazer poesia, sei amá-la, desde a infância até o dia em que eu viver para sempre ou acabar como um sopro. Não sei fazer música, suas notas me escapam e só lembro o refrão. Sei ouvi-la e agradeço todos os dias pela dádiva da natureza que são os sentidos. Ouço, sinto gosto, vejo, tateio, sinto cheiro. Não sei escrever conselhos da vida, sei dizer que nos livros há muito mais para se aprender do que na TV. Não sei escrever sobre política, sei dizer que poder deveria ser poder ouvir sem pré-julgar. Não sei escrever sobre esportes, mas sei que o vento no rosto é uma das recompensas imperdíveis de se correr cedo da manhã ou no final da tarde, ou em qualquer hora.
Talvez nem saiba escrever sobre literatura, esta força que pulsa, que move, que tira do lugar, que joga, que canta, que dança, que faz ser feliz a cada linha. Se soubesse escrever sobre as palavras que saltitam, que marcam, que fazem sentir, escreveria que a literatura me faz feliz, me faz ser todos e me joga na cara que sou apenas mim. Se me pedissem um texto, diria que até nem sei escrever, mas que amo tanto as palavras e o bem que elas me fazem, que escreveria uma linha, ou duas, ou três.
Se pudesse hoje indicar a alguém um amigo, diria para sempre levar consigo um livro. Iria além: diria para levar “O livro dos abraços” de Eduardo Galeano.
Julho 19, 2008
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Ela levanta todo dia às seis. Acorda às sete. Seus primeiros pensamentos do dia não têm a ver com o clima, a cor do vestido ou quantas vezes precisa mastigar antes de engolir. Se pudesse, faria seus amigos solúveis; para pô-los em saquinhos, levar na bolsa e então a cada 30 minutos misturar com água. É disso que tratam os pensamentos que com linguagem desenha cedo de manhã.
Ela ri das coisas mais sérias para ter sua infância sempre por perto, correndo e dobrando barquinhos para colar na parede. Ela se vê criança quando acha que vai endurecer. Há covinhas que se formam no seu rosto quando ri. Acho que sorri para lembrar que tem covinhas. Ou as covinhas têm vida própria. Puxam sua pele para lá e para cá. E ela sorri.
Quando pensa em filosofia, esquece da cor dos próprios olhos. Mal sabe ela que eles são faíscas que perturbam. Não há nobreza em estar triste. Mas às vezes ela reconhece que precisa estar. Há um canto que ela não solta. Uma escrita que ela acaba deixando para depois. Quantos livros mais terá de ler até que perceba que já viajou o mundo todo em linhas? Ela sabe o que é um átomo. Sabe a tabela periódica. Mas o que mais importa ainda é o gosto do café com leite.
Como uma manhã de domingo é a calmaria da sua voz, ainda que suas mãos estejam ocupadas tentando encaixar as linhas de um texto que ela nem sabe se vai ler. Onde nasceu, as janelas se fechavam tarde da noite, e os vizinhos passavam pela cerca algo que acabaram de tirar do forno. Ela sabe que as mudanças podem até machucar, mas que há sempre um lugar esperando chamado casa da mãe.
Cabelos negros cobrem as alças da sua mochila. Ela pensa às vezes que eles nem são seus. Brinca que eles têm vida. Ao voltar para casa, pensa nos contos que ainda não escreveu. A notícia que procura todos os dias nos jornais é a que diz que a lua é feita de queijo e que estão à venda as passagens para lá, com desconto para estudante. Boa noite é o que diz a si mesma. Abre mais um livro e sonha um sonho que começa todo pelo avesso.
Para Luciana, Juliane, Ronise e Wendy.
Julho 3, 2008
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Surpreendo-me com essas coisas do dia-a-dia. Fiquei toda atrapalhada para explicar ao meu marido (que fala inglês e espanhol, o que faz de seu português algo muito divertido) a diferença e relação dos advérbios “além” e “aquém” (são advérbios, certo? bem, são 22:55 de domingo e eu acabei de ver o Fantástico, o que prejudica um pouco meu raciocínio lingüístico). Pois bem, ele me pergunta e eu me “embanano” toda para responder. Sim, logo eu, que adoro ficar blablablando essas minúcias tão apaixonantes da nossa língua portuguesa. Como todo professor, que tem que às vezes fazer micagem para não perder a explicação e o momento mágico do aprendizado, apelei para o áudio-visual. Coloquei o celular no meio da perna e disse: “Esse celular é onde se quer chegar, se não chegar a ele é aquém; se passar dele é além”. Brilhante!
Junho 30, 2008
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Nesta manhã, liguei a televisão (como sempre faço quando preciso de barulho, não necessariamente do entretenimento proporcionado) e estava passando um telejornal “nao sei o quê”. Enquanto escovava os dentes, ouvi o fim de uma reportagem sobre o fechamento de casas de bingo clandestinas no litoral. Nada de novo sob o sol. Fantástica foi a deixa da repórter, talvez para remendar as gafes que tinha dito e que foram prontamente corrigidas por seu entrevistado. Ela disse, com uma entonação de quem anuncia a invenção da roda, a seguinte frase: “lembrando que enquanto não forem legalizadas as casas de bingo esta é uma atividade ilegal”. Ótimo. Dei uma gargalhada, quase me afoguei com a escova de dentes e comecei meu dia rindo. Prometo que amanhã ligarei a televisão no mesmo horário e assistirei ao mesmo telejornal.
Junho 19, 2008
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A primeira palavra que pronunciei foi “homem”. As primeiras frases que escrevi no jardim de infância serviram para descrever as casinhas e os cogumelos que eu desenhava. Aos dez anos me orgulhava de tudo quanto podia decorar: os nove planetas, a tabuada, o conceito de ilha, o que era o substantivo.
Na adolescência aprendi que para ter sentido a minha rebeldia eu deveria ter argumentos. E a leitura foi a amiga mais leal.
Aprendi aos treze anos todos os tempos e modos verbais, mal sabia eu a utilidade que teriam agora, aos 24. As línguas me chamavam. A história me encantava. Era péssima em geografia.
No ensino médio eu cumpria as atividades das ciências exatas pela necessidade da nota. A comunicação já me chamava.
Minha redação de vestibular recebeu nota 3,5. Gabaritei em português e em inglês, o que me deixou mais conformada. Ainda assim, escrevia muito mal.
Letras foi a escolha mais feliz da minha vida em termos de conhecimento. Tornar-me revisora foi um presente e uma conseqüência da felicidade que as línguas me trazem.
Os gramáticos são importantes no meu dia-a-dia. Aprendi, porém, a respeitar o uso e a metamorfose da língua. Sou feliz da linguagem, das palavras e da força que elas têm. A linguagem me torna curiosa da vida e das coisas. Guardo as palavras, que na infância me serviam para descrever cogumelos coloridos e que agora servem para descrever as coisas da vida, na caixinha mais bonita da minha consciência.
Junho 16, 2008
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