Uma barbaridade a historinha da centopeia contada pelo ilustríssimo lexicógrafo-mor da Academia Brasileira de Letras na reunião da ABEU, Evanildo Bechara, no início do mês. Dizia a historinha que a centopeia era o bicho mais rápido de toda a criação, em função de suas 100 pernas. Após uma grande vitória na corrida contra todos os outros animais, a centopeia recebeu da tartaruga a seguinte indagação: “Como você consegue coordenar todas essas pernas e fazer com que cada uma ande no tempo certo?”. A centopeia respondeu: “Eu não penso, eu simplesmente ando”. Mas diz a historinha que daquele dia em diante a centopeia começou a pensar sobre as suas pernas, qual deveria vir primeiro para dar o passo, e desde então ela anda como anda, lentamente.
O problema dessa historinha é que ela serviu de ilustração a uma resposta dada pelo nobre Evanildo Bechara à simples pergunta de uma professora: “Como faremos para sanar as dúvidas, como explicar aos nossos alunos por que tantas mudanças na língua que estão aprendendo”?
Fora que antes de responder, ele acusou todos os professores brasileiros de ensinar debilmente a Língua Portuguesa, e por isso, segundo ele, é que teremos problemas em apreender as regras do acordo.
Nem sei o que comentar.
Junho 16, 2009
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Céus! eu ainda tenho um blog.
Após tanto tempo em silêncio, vai um desabafo: onde é que já se viu o VOLP mexer em tanta coisa que não foi apontada no Acordo. Vou fazer uma maratona de leitura do VOLP todo…
Maio 28, 2009
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Estamos no mercado, eu e meu irmão, na seção de legumes e verduras. Eis que à nossa frente está uma enorme cesta abarrotada da bendita leguminosa roxa de gosto estranho. Sim, havia um zilhão delas, com uma singela plaquinha anunciando “beringela xx R$ o quilo”. Meu irmão perguntou: “Você já comeu isso?”. Eu: “Não me lembro”. “É assim mesmo que se escreve?”. Essa era a pergunta que eu queria evitar. Afinal, sempre tenho uma boa resposta para o guri. Não foi igual desta vez. Disse: “Pelo uso é com ‘j’, pela origem é com ‘g’”. Próxima pergunta dele: “E você escreve como?”. “Eu não escrevo”…
Fevereiro 25, 2009
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Só posso ter sido abduzida pelo espaço de tempo de uma página de leitura. Explico: revisei um livro sobre indígenas em dezembro. Fiquei todo o mês de janeiro de férias. Esta semana retornei e comecei a revisar novamente o mesmo livro. Ao me deparar com a frase que colocarei abaixo, pensei: só pode ter sido uma abdução pelo espaço de tempo de uma página. Não há nada que explique o fato de eu ter deixado passar a incrível soma de duas redundâncias; logo eu, que não contenho o riso diante de uma boa redundância. Não, não sei como explicar, resta me divertir com a frase: “Nesse caso, é o trabalho gratuito de um serviço que culmina com uma festa no final”. Depois da gargalhada, resta lamentar a abdução do revisor no espaço desta frase.
Fevereiro 4, 2009
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Hoje voltei a ocupar a mesa grande à esquerda na sala da produção da editora. A caneta vermelha, antes tão familiar, sorriu tímida e saudosa dentro do porta-canetas. É bom estar de volta.
Recebi a notícia (descanso acabou) de que terei de dar um pequeno treinamento para toda a equipe sobre o novo acordo ortográfico. Fiquei ansiosa e preocupada, e mais uma vez senti falta da Fabiana.
Boa sorte pra mim, vou precisar.
Fevereiro 2, 2009
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Desde 19 de dezembro eu não reviso um texto. Eu li. Juro. Mas nada muito difícil e que faça pensar. As férias sempre trazem uma preguiça congênita: meu cérebro simplesmente “puf” desacelera. Tive de pensar três vezes ao responder para minha tia por que “heróico (heroico)” não é uma proparoxítona. Isso sem falar que há anos eu não dizia “pra ti usar”. A Fabiana tinha me curado. Primeiro do “mim”, e depois com muita paciência do “ti”. Isso uns 4 ou 5 anos atrás. Hoje falei, com todas as letras, “isto serve pra ti usar, Karine”. Alguém tem uma gramática aí?
Boas férias e boa mudança para a Fabi. Saudades dela.
Ao Pablo: gostei da cara nova dada ao blogue.
Ao Alex: gostei de teres entrado aqui, serás sempre bem-vindo.
Janeiro 5, 2009
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Se minha vida fosse contada em livro, gostaria de ver as partes engraçadas relatadas por Luis Fernando Veríssimo, as partes tristes por Fernando Pessoa, as românticas por Pablo Neruda, as sombrias por Edgar Allan Poe e as idealistas por Eduardo Galeano.
Abraços ao Pablo, que foi o provocador deste pensamento.
Abraços à Fabi, de quem tenho saudades. Se minha vida virasse livro, ela seria a revisora, sem dúvida.
Dezembro 5, 2008
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Achei tão fantástico…
Triângulo amoroso
Era uma simpática forma geométrica. Era um triângulo que amava. Amava loucamente uma hipotenusa. Uma linda hipotenusa que traçou a reta do seu coração, transformando sua pacata vidinha angular num verdadeiro teorema. Via-se num futuro próspero, ele e sua amada, uma fórmula perfeita, um piquenique, ele, Hipotenusa e seus pequenos gêmeos, Seno e Coseno.
Entretanto, havia um octágono em seu caminho, que chegou se insinuando anguloso a sua adorada Hipotenusa. Fora seu fim. Nem a soma de seus amigos quadrados catetos poderiam trazer de volta o amor de sua Hipotenusa. A simpática forma geométrica agora não era mais simpática, tampouco podia se encaixar nas retas traçadas no papel. Deu para beber e teve resultados negativos. Nem seu ajustado amigo Cateto pode recuperá-lo da fossa. Estava acabado. Decidiu que venderia sua área para a primeira equação de Báscara que passasse pelas imediações.
Dezembro 1, 2008
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O ser humano é o bicho mais adaptável do planeta. Se, por exemplo, colocarmos um urso polar no litoral catarinense, ele vai morrer (literalmente) de calor. O ser humano, se colocado em qualquer canto do planeta, sobrevive e acha uma forma de ganhar dinheiro com o ambiente.
Com a linguagem fazemos também adaptações, e por mais imbecis que elas sejam sobrevivemos a elas, convivemos com elas. Veja-se por exemplo o anúncio de uma festa colocado na entrada da universidade: “Participe da Caipifunkfest!”. Quando passei pelo tal anúncio, gravei aquele palavrão (sim, pois palavrões são como música ruim: a gente grava com facilidade). Aproximadamente 5 minutos depois, eu entendi do que se tratava: uma festa (fest, festa em alemão) com caipirinha (Caipi) e funk.
Agora não me venham reclamar dos prefixos e da dificuldade de entender a aglutinação das palavras prefixadas em função do acordo ortográfico! Se essa gente consegue se entender com uma miscelânia dessas (caipi: abreviatura de caipirinha + funk, palavra de língua inglesa + fest, palavra alemã), por que é que não entendem as palavras que podem encontrar no dicionário, assim como as estruturas de que tratam as gramáticas? Sim, pois o anúncio possui um enunciador e pressupõe um público. Este público pressuposto na criação do anúncio, para entendê-lo, precisa apenas pensar na junção das palavras, algo nesse caso nem tão difícil, pois por aqui parece modinha criar nomes de festas com as suas características…
O que não entendo é por que conseguem lidar com junção de palavras e entender tais estruturas e não gostar de, ao menos interessar-se por, gramática?
Novembro 20, 2008
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Ela entra em sua casa sem que ele perceba. Ele, acostumado à companhia de seus livros apenas, não contém o espanto ao ver a sombra do corpo feminino se mover pela sala. É ela. Aquela moça dos cabelos longos e marrons. É dela a lembrança dos momentos das mais felizes trocas de palavras sobre livros, sobre o mundo e sobre estar só. Eles se encontram no meio da sala. Ela chora. Ele entende. O ombro que oferece é sincero.
A conversa desta vez tem um tom mais nublado por causa da dor. Ela sofre por descobrir que cresceu, e que as pessoas grandes não têm tempo para entender a vida, elas vivem.
Ele decide que naquele momento não é e não quer ser seu amigo. Eles se beijam. Eles se movem, eles se envolvem. Ela suspira. O choro se foi. Naquele momento, há entre eles a quebra do tempo, a vontade do para sempre. Eles têm a eternidade tatuada na fronte.
Ele, porém, percebe o devaneio, o insano. Há um outro alguém que espera por ele, em outra parte da cidade. Esse alguém também sente, também sofre, também espera. Na mente dele, há duas mulheres e uma. As duas são uma. Seus cabelos são iguais. A boca desta é daquela. Os ombros, os traços, a volta do queixo. Quem ele ama nem ele sabe. Ele ama? Ele também não sabia por que as pessoas crescem e começam a mentir. Sem querer, sem fugir, ele também havia crescido.
Novembro 18, 2008
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